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Falta de energia leva o preço da energia a pico histórico

Por Daniel Rittner, Cláudia Facchini e Rodrigo Polito do Valor Econômico

O recorde atual, alcançado em 2008, é de R$ 569,59 o megawatt-hora. Segundo indicações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que fez uma reunião ontem com agentes do setor, esse valor será superado. Há chances, inclusive, de atingir o teto de R$ 822 estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Em janeiro, mês em que os reservatórios costumam encher, as chuvas ficaram em 54% da média histórica. Foi a única vez, desde 2002, que o volume armazenado de água diminuiu no período, em vez de aumentar. Paralelamente, um novo recorde de demanda no sistema interligado foi alcançado na quarta-feira, com pico de 83.962 MW às 15h25. A combinação de pouca chuva e consumo elevado fez disparar o preço de liquidação das diferenças (PLD), que serve como referência no mercado de curto prazo. Ele é fixado semanalmente, às sextas-feiras, com base nos cálculos do ONS. Reflete basicamente o custo do megawatt-hora. Quanto mais térmicas precisam ser acionadas para garantir o abastecimento de energia, maior o valor do PLD.

O cenário descrito em reunião pelo diretor da ONS, Francisco José Arteiro, deixou o mercado apreensivo. “A sinalização é de que as chuvas devem ficar em apenas 55% da média histórica em fevereiro”, diz Walter Fróes, da CMU Energia.

Indústrias eletrointensivas que têm contratos de fornecimento de energia de longo prazo, em setores como alumínio e siderúrgico, já se preparam para reduzir algumas atividades produtivas e revender parte de sua eletricidade no mercado à vista. “Acaba sendo mais lucrativo”, diz uma fonte da indústria. As distribuidoras de energia, que têm cerca de 3.500 MW médios descontratados, previam ter uma despesa adicional de R$ 9 bilhões a R$ 13 bilhões em 2014. A conta agora pode subir para mais de R$ 15 bilhões. Sem socorro do Tesouro, as contas de luz poderão subir mais de 20% neste ano.

Preço recorde pressiona caixa das distribuidoras

O valor recorde da energia elétrica no mercado de curto prazo, que deve ser alcançado hoje, coloca pressão adicional no caixa das distribuidoras e reacende debates em torno da necessidade de medidas para conter o consumo. A consultoria Thymos, especializada no setor, estima que o risco de racionamento está atualmente entre 10% e 15%. O sistema elétrico brasileiro é desenhado para operar com um risco de até 5% de déficit no abastecimento.

De acordo com João Carlos Mello, presidente da Thymos, o risco em janeiro de 2013 chegou a 20%. Ele lembra que o país vive um ciclo raro, de três verões consecutivos com chuvas abaixo da média histórica, o que ocorreu pela última vez na década de 1950. Não há previsão de precipitações abundantes em fevereiro. “Agora vamos depender das águas de março”, afirma Mello.

Em janeiro do ano passado, os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste guardavam menos água do que agora, mas estavam em franca recuperação. Em um mês, subiram 8,7 pontos percentuais e chegaram a 37,5% da capacidade máxima; neste ano, diminuíram 2,4 pontos e foram a 40,8% do volume total. O Sudeste e o Centro-Oeste, que constituem um único subsistema, são considerados a principal caixa dágua do país e armazenam 70% de tudo o que pode ser acumulado.

O acionamento das usinas térmicas, que deveria cair neste ano, já chega praticamente aos mesmos níveis de 2013. Na quarta-feira, por exemplo, foram ligadas térmicas que somam 11.421 megawatts (MW). “Vejo a situação com bastante preocupação. Com todas as térmicas acionadas, a sobra de energia para atender a ponta do sistema é de apenas 500 MW médios” avalia o presidente da Bolt Comercializadora, Érico Evaristo. “Com a elevação das temperaturas, estamos com o consumo recorde. E o nível dos reservatórios está muito baixo.”

“O problema é que os reservatórios estão diminuindo justamente na época em que deveriam encher”, diz o presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), Reginaldo Medeiros. Ele já recomenda medidas de incentivo para a contenção do consumo e lembra que a região Sul, mesmo estando fora do racionamento de 2001, reduziu em 8% sua demanda apenas como efeito das campanhas educativas. Medeiros acredita que o governo deveria ser mais cauteloso. “Ultimamente, sempre que corremos riscos, apostaram nas chuvas. E as chuvas vieram, mas nunca se sabe.”

Para as distribuidoras, a situação é especialmente aflitiva. Estimativas do mercado indicam que elas terão que desembolsar R$ 1,7 bilhão, só em fevereiro, caso o preço da eletricidade se mantenha perto do teto de R$ 822,83 por megawatt-hora durante todo o mês. A conta no ano pode superar R$ 15 bilhões. Há menos de 40 dias, elas calculavam o gasto extra em R$ 9 bilhões a R$ 13 bilhões ao longo de 2014, mas o cenário já se deteriorou. Se não houver socorro do governo, as contas de luz podem subir 20%.

Até 2012, as distribuidoras bancavam com recursos próprios os gastos adicionais com o uso de energia térmica. Depois, repassavam a despesa aos consumidores, nos reajustes anuais. Em 2013, para evitar aumento explosivo das contas de luz com a queda dos reservatórios, o Tesouro assumiu esses gastos. Agora, tudo deveria voltar ao esquema anterior, mas as distribuidoras alegam problemas de caixa e advertem que as altas de tarifas podem ser salgados demais, se o governo não repetir a “ajuda”.

O que complica ainda mais é o fato de que as distribuidoras estão descontratadas em 3,5 mil MW e precisam ir ao mercado de curto prazo, todos os meses, para comprar a energia que oferecem a seus clientes. Com a alta de preços, a despesa também aumenta.

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Hoje, o Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico - FMASE conta com 19 entidades na sua formação, e é uma das principais vozes do setor para tratar das questões ambientais referentes aos empreendimentos de geração de energia.


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